Atualmente, muito tem se falado da aplicação da tecnologia na educação, da questão dos livros digitais, do uso de um notebook por aluno, do Ipad, do celular e de outras plataformas, porém pouco se ouve a respeito das mudanças que teremos de fazer no plano pedagógico e das reformulações nas linguagens.
Quando observamos uma criança de dois ou três anos no seu dia a dia, notamos seu envolvimento com a linguagem não verbal, rica em cores, ágil, encantadora, com animações, movimento e sintética. A criança quer descobrir, interagir e criar.
Com um celular na mão, fotografa, grava, navega pelos mapas e mostra muito mais intimidade com o equipamento do que seus pais, pois esse é o mundo que conhece desde que nasceu; não foi obrigada a se adaptar, não tem medos e preconceitos, não se sente ameaçada na zona de conforto em que se encontra e, assim, responde rapidamente às inovações.
Essas características são comuns aos nossos alunos da Educação Básica; a intimidade com as tecnologias da informação é um traço marcante para todos os nascidos nos últimos 20 anos.
O aluno de hoje é diferente também pelas mudanças sociais, econômicas e políticas ocorridas nas ultimas décadas, o respeito às diferenças, as políticas de inclusão, a globalização da economia e da cultura, o surgimento das grandes redes de informação, os sites de busca e, finalmente, a quebra das barreiras da língua. As necessidades dos jovens da geração “Do you speak Google?” são diferentes dos conteúdos tradicionais lecionados, sendo mais importantes o desenvolvimento de competências e habilidades para o uso pleno de toda a informação disponível e o domínio das ferramentas de comunicação.
Partindo dessa visão do novo aluno, devemos traçar um modelo para a nova escola, na qual vários paradigmas terão de mudar. Nosso modelo educacional, com dois séculos de história, não contempla mais as necessidades desse jovem e nem da sociedade atual.
O primeiro desafio é substituir os modelos de aulas e currículos estruturados para um conjunto de alunos, sem atentar para as necessidades e características de cada aluno. A mudança do olhar coletivo para o individual, com o número de alunos que temos de atender, é possível com o uso da tecnologia, pois ela permite que o desempenho de cada aluno seja acompanhado em tempo real, com correções contínuas no processo de aprendizagem, gerando, assim, propostas individuais e currículos diferenciados, de acordo com as necessidades e interesses individuais dos envolvidos.
Esse primeiro desafio exige dos professores uma mudança em relação à tradicional aula expositiva, baseada na transferência de informações. O novo papel do professor passa pela orientação e estruturação do que o aluno deve aprender, sem perder, porém, o conjunto de habilidades e competências necessárias para a inclusão social do jovem.
O segundo desafio é desenvolver no jovem um domínio pleno da linguagem, verbal e não verbal, que possibilite um alto grau de interpretação de textos, fotos, tabelas, mapas, imagens, áudios, animações, filmes etc. O jovem de hoje tem que saber fazer o uso correto da linguagem de acordo com a finalidade, adequando-se ao perfil do público na forma de se expressar e produzir a comunicação nas suas múltiplas formas. Não podemos mais resumir o processo à produção de apenas um texto; hoje os recursos permitem múltiplas maneiras de nos expressar e defender nossas idéias e propósitos.
Outro desafio importante é mostrar ao jovem como utilizar a informação, qual o grau de confiabilidade, se a fonte é adequada e, para isso, precisamos ter uma boa estrutura de conhecimento. Nesse desafio, também encontramos a questão da ética, pois o conhecimento, quando aplicado, é uma ferramenta que interfere na sociedade e cada ação desencadeia um processo em que o jovem tem que ter consciência de sua responsabilidade.
Esses desafios exigem dos professores generosidade, pois devem entender que será necessário uma mudança profunda em sua postura, um empenho em aprender as novas tecnologias, um repensar de suas práticas didáticas e um olhar mais cuidadoso para a aprendizagem.
A avaliação deve ser associada a ações de melhoria da aprendizagem, sempre buscando determinar as necessidades individuais de cada aluno e estabelecer um projeto adequado de ensino. Caberá ao professor olhar cada aluno, estimulando seu aprofundamento nos temas de seu interesse, fornecendo subsídios para corrigir eventuais dificuldades e aprimorar suas competências e habilidades.
Concluindo, o uso da tecnologia nas escolas exige uma nova linguagem, que reúna imagens, sons, cores e movimento, com textos curtos, porém com links necessários para um texto mais completo. Deve conter interação, jogos, pesquisa e reflexão sobre o cotidiano, focando as informações que chegam aos jovens, sejam de ciências, política, economia ou sociedade, permitindo que estes, de forma colaborativa, proponham soluções para intervir na realidade e construir uma sociedade mais justa e responsável.
José Tadeu Bichir Terra – Diretor Editorial Nacional de Mídias Digitais – SEB S.A. Físico, formado pelo IFQSC – USP, professor de Educação Básica e Ensino Superior, ex-coordenador pedagógico e diretor de Unidades de Ensino Fundamental e Médio, autor de material didático e artigos para revistas e jornais, palestrante, atualmente Diretor Pedagógico do Projeto Digital, coordenando a equipe de trabalho de criação, produção e implantação dos materiais digitais de ensino fundamental e médio, voltados ao uso de um notebook por aluno.