A vida de Nelson Mandela (Madiba) se confunde com a própria história da África do Sul e do regime segregacionista que vigorou no país por décadas.
Nascido na nobreza Xosa (não confundir nobreza com riqueza!), antes dos 30 anos já estava envolvido com a luta contra o apartheid. Orador nato, encantou os membros do CNA (Congresso Nacional Africano) com sua fala firme e calculada. Era alto, atlético, esportista com hábitos saudáveis que tentou manter mesmo durante os longos anos de prisão. Antes de completar 40 anos, em um discurso, disse que seria o primeiro presidente negro da África do Sul… e foi!
Muitos anos se passaram até que isso pudesse acontecer. Preso em 1962 e, depois, condenado à prisão perpétua pela sua combatividade ao regime e por ter fundado o grupo Umkhonto, que pregava a luta armada, amargou uma rotina que começava às 4h30 todos os dias para fazer exercícios físicos como alongamentos e corridas. Com horários controlados e específicos na prisão, a rotina envolvia “quebrar pedras”, algumas atividades competitivas como vôlei e futebol (o futebol sempre foi o esporte dos negros e o rúgbi, dos brancos).
Com o tempo começou a perceber que uma África do Sul democrática, integrada, que respeita os direitos humanos, civis e sociais não poderia, de maneira alguma, ser conduzida apenas por brancos ou apenas por negros. A manutenção das hostilidades só agravaria os problemas e poderiam, além disso, conduzir o país a uma Guerra Civil declarada, já que uma Guerra oculta e velada já acontecia há muito tempo.
Percebeu e aprendeu que acordos políticos, entendimentos, respeito de ambos os lados poderiam ser o passaporte para a integração da África do Sul ao mundo da cidadania.
Alguns anos antes de sua libertação, começaram os contatos secretos com o governo da África do Sul. O presidente P. Botha o recebeu e se impressionou.
Esses contatos eram totalmente secretos. A divulgação dos mesmos poderia provocar a ira dos setores conservadores do governo e dos radicais do CNA e comprometer qualquer possibilidade de acordos pela via pacífica.
Frederick De Klerk substitui P. Botha na presidência e, além de manter os contatos, aprofundou o processo de desmontagem do regime. Não podemos esquecer que Mandela estava condenado à prisão perpétua!
A intuição e a perspicácia de Mandela foram fundamentais nesse momento. Notar que só com a participação e o envolvimento dos brancos ocorreria o processo de desmontagem do regime foi determinante. Deixar claro ao governo que a participação dos negros no processo político-eleitoral não levaria a um revanchismo e a uma postura de segregacionismo invertido, com punições e julgamentos de brancos de crimes anteriores, foi fundamental.
Em 1992 a prisão perpétua é revogada e os preparativos para libertação são acelerados. No Parlamento, F. de Klerk, aos poucos, vai revogando as leis segregacionistas e enfrentando a oposição da direita radical, que temia, além dos negros, os “comunistas” que sempre foram aliados do CNA.
A luta para evitar a Guerra Civil foi intensa, porém recompensada. F. De Klerk e Nelson Mandela receberam o Nobel da Paz e Mandela foi eleito democraticamente em eleições livres e diretas pela primeira vez na África do Sul, sendo também o primeiro presidente negro do país, como profetizara décadas antes.
É extremamente importante perceber que Nelson Mandela não se colocou apenas como um negociador: ele sempre teve a postura de líder. Impôs-se pelos modos, pela educação, pela postura, pela inteligência e altivez.
Mandela é o retrato de um povo livre dos impedimentos raciais, com problemas, e muitos, como todo país em desenvolvimento, mas que, ao sopro das vuvuzelas, podem se expressar livremente e, literalmente, em alto e bom som!
*Beto Gussi, professor da Unidade Lafaiete, em Ribeirão Preto, direto da África do Sul para o COC.